A ocorrência de “uma espécie” de Mal Alzheimer atualmente em indivíduos com Síndrome de Down é quase inevitável, pois muitos portadores da síndrome apresentam evidências neuropatológicas do Mal de Alzheimer acima dos 40 anos. No entanto, considero de grande importância mencionar que nem todos desenvolvem os sintomas do Mal de Alzheimer. As alterações neuropatológicas deste Mal surgem em portadores da Síndrome de Down já aos 30 anos, contudo o quadro clínico só se torna diagnosticável em média aos 60 anos de vida.
Na verdade, a demência mais freqüente na Síndrome de Down assemelha-se tanto com o Mal de Alzheimer, que é diagnosticado como uma doença à parte da síndrome. Entretanto, o Alzheimer, aparentemente, não se origina, a partir de determinado período da vida de um portador da síndrome, o que na verdade acontece é que existem alterações histológicas semelhantes às encontradas no Mal de Alzheimer já presentes no sistema nervoso central de indivíduos portadores da Síndrome de Down, o que acarreta na manifestação de uma demência em uma idade mais avançada. Esta idéia é reforçada por genes importantes para a patogenicidade do Mal de Alzheimer localizarem-se no cromossomo 21, incluindo o gene da proteína precursor de peptídeo amilóide (APP). Portanto, indivíduos trissômicos apresentam maiores níveis séricos e neurais de APP em relação a pessoas consideradas normais.
O quadro clínico demencial surgiria apenas em idade mais avançada nos quadros de trissomia do cromossomo 21 devido aos mecanismos compensatórios do sistema nervoso central que equilibrariam os efeitos das alterações neuropatológicas, progressivamente tornarem-se mais ineficientes com a idade.
Dois artigos publicados pela revista “Neuron” em 6 de julho de 2006 trazem novas perspectivas para a Síndrome de Down, para o Mal de Alzheimer e outras desordens neurodegenerativas, pois pesquisadores descobriram que anormalidades surpreendentemente simples no mecanismo de moléculas que regulam o crescimento neuronal podem matar neurônios contribuindo para o déficit cognitivo nas condições citadas. Um dos grandes mistérios que sempre envolveu a Síndrome de Down era como este excesso de gens ligado ao par 21 conduzia a um atraso cognitivo e, com o aumento da expectativa de vida, perguntava-se por que muitos portadores da síndrome apresentavam evidências neuropatólogicas e sinais do Mal de Alzheimer. Segundo as novas pesquisas na área, baseadas em modelos animais (ratos trissômicos) foi possível entender que a neurotrofina “fator do desenvolvimento nervoso” (NGF) que regula o desenvolvimento e a conectividade neuronal ficava escasso nestas condições. Curiosamente a expressão de apenas um gene (APP), presente na Síndrome de Down, através excesso cromossômico, era também presente no Mal de Alzheimer e outras demências. Tal expressão genética interrompia o transporte da neutrofina (NGF) importante para a sobrevida e conexão neuronal.
Descobriu-se também que a morte neuronal, nestes casos, localizava-se no hipocampo, área cerebral principalmente responsável pelo aprendizado e memória, esclarecendo as dificuldades cognitivas específicas dos portadores da Síndrome de Down. Entretanto, é ainda não é claro se as mudanças na expressão dos receptores de neutrofina (Trk) estão envolvidas no processo patogênico ou são um efeito indireto da doença.
A causa da morte celular acelerada poderia ser multigênica, já que centenas de genes estão disrregulados nas trissomias, mas surpreendentemente, foi descoberto que uma alteração apenas do receptor de Trk foi suficiente para o desenvolvimento deste fenótipo, sugerindo que a disregulação de um único gene é suficiente causar alterações celulares, resultando na morte neuronal.
Embora, os resultados destes estudos estejam ainda longe de sugerir qualquer nova estratégia terapêutica para a Síndrome de Down, pode ser possível que as drogas que influenciam o precocessamento do APP possam no futuro ajudar a restaurar o transporte retrógrado de NGF e portanto minimizar os sintomas cognitivos na Síndrome de Down ao longo do desenvolvimento do seu portador. Assim, estas novas pesquisas trazem, por enquanto, apenas novos insights sobre a patogênese da Síndrome de Down e salientam que o alvo primário do tratamento de desordens neurodegenerativas não é somente de manter os neurônios vivos, mas de mantê-los conectados.